Feykhus

Ragna Tales: Feykhus
 
InícioFAQBuscarMembrosGruposRegistrar-seConectar-se

Compartilhe | 
 

 [RagnaTales] Garra das Trevas

Ir em baixo 
AutorMensagem
Administrador
Administrador
Administrador
avatar

Masculino
Número de Mensagens : 332
Idade : 28
Localização : Belém - PA
Data de inscrição : 07/03/2008

MensagemAssunto: [RagnaTales] Garra das Trevas   Dom Maio 18, 2008 12:01 pm

Roteiro e texto: Rafael de Agostini Ferreira
Character design e arte: Daniel "NIORI" Uires



Os acontecimentos deste capítulo encontram-se na ordem apresentada na seguinte linha cronológica:

Eclipse Final
Ruína de Rune Midgard
Hora Zero
Fim de Rune Midgard
Shirabara
Dämmerung
-> Garra das Trevas <-
Morroc Saga


***

Izlude, cidade-satélite de Prontera
9h50 da manhã

O som de sinos podia ser ouvido por toda parte. Na plataforma de embarque, ao sul da pequenina cidade, carregadores levavam dezenas de malas e pacotes para um veículo imenso - um grande navio, mas com um enorme balão oval preso no alto, que o mantinha suspenso no ar.

- Atenção, senhores passageiros! - berrava um homem com um megafone - Decolamos em vinte minutos! Por favor, queiram embarcar no aeroplano!

O louro sentia-se estranho ali. Izlude era o lar dos Lordes; todos já tinham sido espadachins um dia. Leafar, porém, tinha recebido suas habilidades por "herança" de seu clone, que roubou boa parte de sua vida. Assim, era um "inexperiente Lorde experiente". E não era apenas isso que o incomodava. Não vestia sua armadura. Não tinha por perto nenhum de seus elmos ou nem uma simples espada. Vestia uma camisa entreaberta de cor chamativa, com um cordão dourado no pescoço - ornamento que contrastava com a pulseira negra em seu pulso. No lugar das joelheiras e botas metálicas, somente uma bermuda simples, com sandálias nos pés. Um óculos de lentes vermelhas segurava seu cabelo para trás, naquela visão atípica do líder da Ordem do Dragão.

- Então... férias, não é? - disse ele, olhando a pequena comitiva que o acompanhara até ali.

Seu pai, o Arquimago Leonard Belmont, estava de braço dado com a esposa, Margareth. Miara, a sacerdotisa, usava uma roupa rosa - sinal do treinamento de suas habilidades de Transclasse. O homem de sobretudo preto e cabelo castanho curto era Kaizen, um Justiceiro que tinha recém integrado a guilda. Segurava um embrulho do tamanho de uma caixa de sapatos, observado curioso pelo cãozinho de Leafar, Rush.

- Você precisa, filho. - disse Leonard, olhando orgulhoso.

Leafar suspirou. Não tinha mais como escapar daquilo. Seu pai era um dos homens mais influentes de Geffen. Membro do Conselho de Magia, recentemente Leafar descobrira que ele participara de uma longa jornada secreta para reviver o deus dragão Oparg, padrinho da Ordem do Dragão - sem citar que o próprio Leonard tinha clonado Leafar, usando os conhecimentos do Doutor Lighthal, para salvar sua vida há alguns anos.

E toda essa influência tinha sido aplicada agora para garantir que Leafar teria um descanso. Leonard e Margareth entendiam que ele tinha passado por muitos traumas em pouco tempo, e essa viagem lhe faria bem. Usando os recursos que tinha, Leonard tinha conseguido um lugar para Leafar.

- Eu preciso é levar a minha espada. - respondeu ele, claramente contrariado.

- Nada disso! - foi a mãe quem interrompeu, soltando o braço do marido e indo arrumar sem necessidade o cabelo do filho - Você já faz demais por Rune Midgard! Que é isso? Fanático por trabalho? Precisa descansar um pouco! E lá em Arunafeltz a vida é mais tranquila! Eles possuem uma igreja enorme, e não tem nada de assustador lá perto! Só campos selvagens, com criaturas irrelevantes. Nada de levar espadas, armaduras e afins. Não senhor, mocinho!

Miara e Kaizen riram enquanto Leafar era abraçado pela mãe, quase sendo sufocado. Ele, após libertar-se do aperto materno, aproximou-se dos dois.

- Mia... posso ficar tranquilo então?

- Pode sim, milorde.

Leafar sorriu. Sabia que Miara era respeitosa com seu clone, que tinha fundado a Ordem do Dragão. Depois que o novo Leafar e Miara perderam seus pares, tinham se tornado amigos muito mais próximos. Por muitas vezes, Leafar insistia com ela que não era necessário nenhum tipo de formalidade. Mas mesmo lembrando ela disso todas as vezes, ela continuava chamando-o de "milorde" ou "senhor". Era uma batalha perdida, mas que não o impedia de sorrir quando lembrava-se da fidelidade da amiga.

- Bem, aí tem o número do lugar onde vou ficar. Tem também o meu número.

Kaizen olhou curioso para o aparelho na mão de Miara. Era uma caixa retangular pequena e fina, toda vermelha. Tinha um visor nela, e parecia ser possível abri-la.

- O que é isso mesmo? - perguntou ele, coçando a cabeça.

- É um celular, Kaizen. - disse ela, deixando o Justiceiro olhar - Foi a Bonnie Heart quem nos comprou alguns.

- E pra que isso serve mesmo?

- Funciona igual nossos brasões da Ordem do Dragão. - continuou ela, com paciência - Não nos falamos por eles, onde quer que estejamos?

- Sim!

- Então. Esse celular é a mesma coisa. Mas ao invés de tocarmos ele para falar, digitamos um número. Aí a outra pessoa precisa ter um celular também. O celular dela solta uma música. Nós abrimos ele e falamos.

- Aaah! Aposto que é coisa de Lighthalzen!

- É sim! - Miara sorriu e com delicadeza pegou de volta o aparelho do Justiceiro, enquanto se aproximava de Leafar.

- Certo. - Leafar olhou para o próprio aparelho, de cor preta e discreta - Então você pode me ligar, caso precise. Deixo a Ordem nas suas mãos. Confio no seu julgamento, Mia! E espero que até lá tenha terminado seu treinamento, para usar aquela roupa vermelha bonitona!

A sacerdotisa ruiva sorriu e abraçou o amigo. Antigamente, Miara teria gaguejado e mostrado insegurança. Agora, porém, tinha confiança no que fazer e em como podia exercer plenamente sua liderança.

- Obrigada, senhor. Espero que tenha um ótimo descanso e faça uma boa viagem!

- Leafar! - Kaizen tomou a frente e também abraçou o amigo - Sabe, eu te daria uma espada pra levar, mas sinto que o seu pai ali ia me trucidar! Então tome isso!

O Justiceiro entregou a caixa para Leafar. Rush começou a pular, inquieto.

- Haha! Não repara o cachorro estar louco! Tem chocolate aí! Mas é um chocolate de um evento sazonal, sabe? Os fabricantes dizem que é bom para levantar o astral. Então não coma ele à toa!

- Obrigado, Kai! Vou me lembrar disso!

O louro andou até a plataforma de embarque, onde seu pai entregava uma gorjeta para os carregadores das malas. Virou-se então para ele.

- É isso aí, meu filho. Lembra-se do homem que vai encontrá-lo, né?

- Sim. Albert, não é?

- Exatamente. Ele vai te apresentar a cidade e cuidar de você lá.

- Eu não preciso de cuidados...

- Tsc.Você não vai muito longe assim.

Os dois ficaram quietos. Leafar olhava para o chão, desanimado. O cãozinho notou e deitou-se nos pés dele, complacente. Ao fundo, um navio partia para a cidade de Alberta, enquanto o ar marítimo acariciava gentilmente a todos.

- Filho, escute. - Leonard colocou as duas mãos nos ombros de Leafar, que mantinha-se cabisbaixo - Essa viagem é para você se renovar. Quando Elizabeth morreu, a menina levou com ela todos os vestígios do que aconteceu até agora. Está prestando atenção?

- Sim, pai.

- Não perca mais seu tempo citando os nomes daqueles que se foram. Deixe-os gravados nas lápides do jazigo de nossa família. Cada vez que você perde seu tempo lembrando dessas pessoas, está desperdiçando tempo da sua própria vida. Amanhã ou depois um inimigo pode finalmente derrotá-lo. E o que você terá feito até este momento? Terá vivido plenamente, ou terá passado suas horas em uma lamentação eterna?

Leafar sorriu. Abraçou o pai de maneira sincera, como forma de dizer obrigado.

- Por falar em "viver plenamente" - Leonard discretamente puxou um papel do bolso - aqui tem o endereço de uma casa de moças massagistas em Rachel. Sensacional!

- Pai! - Leafar fechou a expressão, indignado.

- Ora! Você está indo viajar solteiro! O que custa passar lá?

- Lá aonde? - Margareth se aproximou, interessada.

- Em uma... padaria! É maravilhosa! A variedade é algo... hun... incrível! - disse o Arquimago, colocando o papel no bolso da camisa de Leafar.

- Ah, filho! - a mãe colocou as duas mãos no rosto dele - Não deixe de ir lá! Tenho certeza que vai se divertir com tanta coisa gostosa pra comer.

- Ah, sim! - o Arquimago girou os olhos, desconcertado - Com certeza tem muita coisa BOA pro Leafar COMER por lá. - terminou dando uma piscada para ele.

- Tchau, família...

Balançando a cabeça, Leafar acenou e passou pela plataforma. Entregou um bilhete para um homem e, acompanhado de Rush, entrou no enorme navio voador. Em alguns minutos, as amarras tinham sido soltas do chão. Uma grande âncora tinha sido erguida, e o enorme barco estava singrando o céu azul, voando para o norte, furando as nuvens brancas e macias, com destino à cidade de Rachel.


***

_________________


Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário http://rtfeykhus.forumeiros.com
Administrador
Administrador
Administrador
avatar

Masculino
Número de Mensagens : 332
Idade : 28
Localização : Belém - PA
Data de inscrição : 07/03/2008

MensagemAssunto: Re: [RagnaTales] Garra das Trevas   Dom Maio 18, 2008 12:02 pm

Capítulo 1 ~ Um novo lar
Aeroporto de Rachel
13h

Leafar mal deu dois passos para fora do aeroplano, notou um homem aproximando-se dele. Estava vestido com roupas elegantes: um smoking preto, de colete cinza. O rosto oval tinha um bigode curto e bem aparado. A calvície acentuada não conseguia anular totalmente a mescla de tons escuros e claros do que ainda tinha de cabelo, denunciando que não era mais um garoto há algumas décadas.

- Presumo que o senhor seja o General Leafar Belmont, do reino de Rune Midgard.

- Sou eu mesmo, senhor.

- "Senhor" digo eu, senhor. Permita que eu me apresente. Meu nome é Albert, e venho encontrá-lo a pedido de seu pai.

- Prazer, Albert. Eu sou Leafar.

- Encantado, senhor. Com a sua licença, vou recolher sua bagagem. Sua carruagem o aguarda. Por favor, fique à vontade.


Rush correu na frente de Leafar, indo cheirar a carruagem. De madeira, toda bem trabalhada, possuía portas pequeninas, com cortinas na parte interna, escondendo um estofado vermelho. As rodas traseiras eram maiores que as dianteiras, e tinha espaço para as malas tanto na parte posterior quanto no teto. Lampiões apagados encontravam-se à frente e atrás dela, que estava atrelada a quatro Grand Pecos.

- Acho que o meu pai exagerou um pouco...

Albert se aproximava, com alguns rapazes trazendo sua bagagem. Notou que o mordomo tinha algumas moedas douradas nas mãos. Tão logo as malas foram colocadas na carruagem, Albert deu o pagamento para os carregadores. Abriu então a porta para Leafar, que foi atropelado por seu cãozinho, que saltou na sua frente, entrando.

- Nosso tempo estimado de viagem - disse ele, segurando a porta aberta, de olhos fechados, queixo erguido e a outra mão para trás - é de treze minutos e doze segundos.

Agradecendo, Leafar entrou na carruagem. Enquanto o cachorro, inquieto, cheirava os bancos e o chão, Leafar olhou pela janelinha. O solo parecia seco, com pouca vegetação. Apertou os olhos ao notar alguns Drops brincando com um tipo de Poring que era todo de pedra. A carruagem seguia moderada, avançando naquele descampado, até que os muros da cidade de Rachel foram se aproximando.

Cruzaram um enorme arco de pedra, observados por alguns guardas. Rush pulou no colo de Leafar, buscando enxergar o que seu dono via. Notaram casas bonitas, bem construídas e finamente acabadas. Fazia calor, e ouviram o barulho de pessoas pulando no que parecia ser uma lagoa, ao longe. A carruagem foi até o centro da cidade e virou à direita, subindo a rua principal. Parou em frente a uma construção enorme.

- Albert...

- Senhor?

- Isso está certo?

- Creio que não entendi sua questão, senhor.

- Esse é o lugar certo?

O mordomo deu uma curta pigarreada, orgulhoso. Começou a tirar as malas da carruagem pacientemente enquanto falava.

- Acredito que o senhor tenha notado a grande mansão ao noroeste, senhor Belmont. Imagino que pensou que fôssemos para ela. Mas ela pertence ao Sumo Sacerdote Zhed, o homem mais rico de Rachel. Posso lhe garantir, entretanto, que a antiga Mansão Murrieta é tão luxuosa e confortável quanto a do senhor Zhed.

- Albert, eu queria dizer que achei esta mansão... ... mansão? Meu pai me alugou uma mansão?

- De modo algum, senhor. A antiga Mansão Murrieta jamais seria alugada, sob hipótese alguma, devido à sua história.

- Ah, menos mal. Mas o que estamos fazendo aqui, já que ela não é alugada?

- Seu pai a comprou. A antiga Mansão Murrieta agora é a Mansão Belmont.

- Ok. Meu pai REALMENTE exagerou.

Albert adiantou-se e abriu a porta, de cabeça baixa, esperando Leafar entrar. Novamente o cãozinho invadiu o lugar antes de Leafar, correndo e cheirando tudo. O louro olhou sem jeito para o mordomo.

- Ele não é de quebrar nada, Albert. Fique tranquilo.

- Seu cão é tão importante quanto o senhor.

O lugar era imenso. Leafar tinha vivido sua infância na mais modesta casa dos pais, em Geffen. Seu pai tinha um laboratório subterrâneo secreto, mas ele não podia ir brincar lá. Quando saiu do estado de animação suspensa, Leafar alternou entre morar na Catedral de Prontera e na Abadia de Sta. Capitolina, no treinamento de Sacerdote. Depois, ao receber os dons de Lorde, como sinal do final da guerra entre Odin e o deus dragão Oparg, passou a viver viajando entre as cidades do reino, em busca de se aprimorar como combatente e líder. O mais próximo que teve de um lar foi a casa que seu clone e a esposa compraram em Payon; mas nunca chegou a morar lá, doando o lugar para uma associação que cuidava de órfãos.

- Quem morava aqui antes?

- O digníssimo senhor Diego Murrieta, falecido há alguns meses.

Saindo do transe inicial que o impacto da mansão lhe causara, Leafar prestou atenção no mordomo. Ele já tinha recolhido toda a bagagem da carruagem e deixado no chão, perto da porta, do lado de dentro. Segurava uma carta arranjada de maneira bonita em uma bandeja de prata.

- Estas são minhas referências e habilidades, senhor. Sirvo os mestres desta mansão desde que ela foi construída. Se for de seu agrado trazer uma equipe de criados e servos que melhor lhe satisfaçam, ou caso o senhor deseje entrevistar outro mordomo, estarei feliz em providenciar-lhe candidatos enquanto me retiro para a agência de empregos.

- N-não, de modo algum.

Leafar começou a olhar a carta. Era impressionante. Albert cuidava da mansão sozinho. Limpava, cozinhava, arrumava e fazia todas as tarefas de manutenção. Lembrava de compromissos sociais, administrava o dinheiro, fazia compras e ainda falava fluentemente todos os idiomas conhecidos, incluindo élfico.

- Eu... - Leafar dobrou novamente a carta e recolocou-a na bandeja de prata - ... eu só posso dizer obrigado, e que é gratificante tê-lo como mordomo.

- Tenha certeza de que farei o meu melhor... patrão Belmont.

Sem sorrir ou ter qualquer alteração na expressão, Albert fez uma leve reverência. Retomou a postura altiva.

- Seu almoço será servido em trinta minutos, senhor. Devo incluir bebidas alcoólicas no cardápio?

- Não, obrigado.

- Muito bem. Por favor, siga-me.

Albert, carregando parte da bagagem, se adiantou, passando pela lareira e pela sala de estar. Subiu uma grande escadaria, acompanhado de Leafar. Passaram por um corredor longo, até chegar em um quarto enorme.

- Esta é sua suíte, patrão Belmont. O banheiro possui opcionalmente água aquecida, tanto nas torneiras das pias quanto na banheira. Seu banho, aliás, está pronto, com a água fresca para mantê-lo confortável no calor de hoje. Por favor, fique à vontade e toque o sino caso precise de mim. O senhor tem um jantar social esta noite, e se o partão não tiver objeções, vou confirmá-lo para as dezenove horas e trinta minutos.

- Pode confirmar.

- Então, com sua licença, vou terminar de trazer sua bagagem e servir seu almoço.

- Claro. Toda, Albert.

O mordomo fez uma mesura e saiu. Leafar olhou para Rush, que já estava com a cabeça enfiada na privada, bebendo água. Deu uma espiada pelo corredor e viu que Albert já tinha descido. Correu para a cama de casal e pulou de braços abertos, de costas, afundando em uma colcha tão macia quanto o colchão sob ela.

- Aaah! Tudo bem, eu me rendo! - falou, de braços abertos, olhando a cobertura da cama - Ok, ok... estou de férias!

***

Salão de festas do hotel
19h30

A noite estava agradável. O céu, limpo e estrelado, era o ornamento perfeito para aquela recepção ao ar livre. Em volta da piscina, arranjos florais ladeavam mesas com petiscos e iguarias. A água refletia a luz de tochas, estrategicamente colocadas ao redor, valorizando os pratos e bebidas. As pessoas, segurando copos e quitutes, riam e conversavam alto.

Ensaiando se conversava com alguém, Leafar estava de pé. Muita gente já o tinha cumprimentado e se apresentado, mas ele não lembrava de metade do nome das pessoas. Vestia um terno preto, com camisa branca e gravata escura. As abotoaduras douradas tinham a anagrama de família - uma letra B dourada. Mal conseguia se mexer, vestido daquele jeito - preferia mil vezes sua armadura metálica, feita com aço puro de Lighthalzen. Sentiu então um toque leve no ombro. Virou-se e viu Vincent, administrador da outra mansão que vira ao longe, mais cedo.

- Ah, finalmente! Permita-me apresentar-lhe nosso anfitrião, Leafar! - disse o homem.

Vincent deu espaço então para que um outro homem se aproximasse. Era alto, de cabelos brancos e postura firme, apesar do rosto calmo. Vestia uma longa túnica branca, com detalhes ricamente trabalhados. Ele estendeu a mão.

- Leafar Belmont?

- Sim. E o senhor é...?

- Zhed. Zhed B. É uma honra conhecer o filho de nosso doador benemérito!

Os dois se apertaram mãos. Leafar ficou confuso. O que mais seu pai teria aprontado?

- Então o senhor conhece o meu pai, imagino.

- Como não poderia conhecê-lo? Foi parte das doações dele que permitiu que nosso amado Templo de Rachel fosse restaurado! Aliás, muito obrigado pela sua discrição "naquele caso".

Leafar assentiu com a cabeça. Depois do almoço, saíra com Rush a pé para conhecer a cidade. Acabou entrando na mansão de Zhed e conheceu Vincent. Entediado, ajudou o administrador a recuperar uma jóia roubada. Olhou Vincent de canto de olho e notou que ele também deu um suspiro de alívio. Leafar descobrira que Vincent tinha um filho escondido com a jardineira, e tinha sido o garoto o ladrão da jóia. Mas problemas de família não lhe diziam respeito. Limitou-se a recuperar o item, o qual tirava do bolso discretamente.

- Eu que peço desculpas por ter entrado em sua mansão sem o senhor estar nela. Aqui está o que procurava.

Zhed recebeu a pedra com alívio. Guardou-a dentro da batina e segurou a mão de Leafar com as duas próprias, efusivo.

- Eu não tenho palavras para lhe agradecer!

- Não há necessidade, acredite. - Leafar deu um sorriso sincero.

- Escute, creio que tenha muitas histórias interessantes para contar, não? Digo, você é de Rune Midgard e é General do Rei de lá.

- É... já passei por bastante coisa.

- Talvez você queira conhecer a Papisa.

- Papisa?

- Sim. - Zhed abaixou o tom de voz enquanto puxava Leafar de lado, longe das pessoas - Ela vive praticamente isolada, por causa de suas obrigações diárias como nossa líder espiritual. Mas acho que faria muito bem a ela ouvir história de alguém de fora.

- Bom, eu posso contar sobre algumas missões que tive.

- Isso seria fantástico! Ela é tão ocupada que mal conhece os próprios arredores de Rachel. Imagino que tenha viajado até a Caverna de Gelo. Lugar fascinante, não?

- É... fora um bando de hienas que ficaram me seguindo no deserto e um bicho branco e peludo que tentou matar meu cachorro na entrada da caverna, tudo em paz.

- Talvez a Papisa goste de ver algum espólio dessa sua aventura.

- Eu não trouxe meus equipamentos e armas. Meu pai não deixou. Ei, eu não posso encontrar uma espada de duas mãos em alguma loja?

- Acredito que não. E descanse, Leafar. Não há nada de grandioso acontecendo em Rachel! Apareça amanhã de tarde no templo e fale comigo. Vou garantir sua passagem para visitá-la!

O homem deu a mão para Leafar e pediu licença para ir recepcionar outras pessoas que chegavam. Naturalmente, Leafar não protestou e foi até uma das grandes mesas retangulares. Pegou uma torrada e passou um patê rosado nela, que cheirava a salsicha e ervas. Um garçom serviu-lhe um suco, com duas pedras de gelo. Com as duas mãos ocupadas, virou-se, então, para a festa. As pessoas conversavam entre si. Nenhum rosto, fora os de Zhed e Vincent, lhe era conhecido. Nenhum amigo ou familiar estava ali. Estranhava a sensação. Em Rune Midgard, sempre alguém lhe parava para cumprimentar ou conversar um pouco. Ocasionalmente, aventureiros iniciantes vinham lhe pedir conselhos ou mesmo meios de ingressar da Ordem do Dragão. Ali em Rachel, porém, era apenas um convidado ilustre. Ouvira murmúrios descuidados de que era "só um novo rico proeminente e esbanjador", já que comprara a luxuosa mansão.

_________________


Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário http://rtfeykhus.forumeiros.com
Administrador
Administrador
Administrador
avatar

Masculino
Número de Mensagens : 332
Idade : 28
Localização : Belém - PA
Data de inscrição : 07/03/2008

MensagemAssunto: Re: [RagnaTales] Garra das Trevas   Dom Maio 18, 2008 12:03 pm

Comeu sua torrada em duas mordidas e deu um gole em seu suco. Colocou a mão no bolso e sentiu o celular. Pensou em ligar para Miara, para perguntar se estavam tendo algum problema. Achou melhor não perturbar a amiga àquela hora, que costumava dormir cedo. Resolveu ligar para Bonnie, mas concluiu que seria falta de educação puxar aquele aparelho no meio de uma festa e ficar conversando com alguém que não estava ali - aquilo decididamente não lhe fazia o menor sentido.

- Parece perdido, moço.

A voz feminina fez Leafar se virar. Do seu lado, uma garota baixa, de cabelo moreno, liso e comprido, também segurava um copo. Tinha olhos escuros e um sorriso largo no rosto. O vestido claro mexia ocasionalmente com a brisa noturna. Era longo, com um corte em U no busto, que era adornado por um lindo pingente roxo e dourado.

- Ah, eu... é, na verdade... bem...

A garota riu baixinho. Leafar riu de volta, coçando a cabeça.

- Acho que "deslocado" é a melhor palavra. Não conheço quase ninguém aqui.

- Agora me conhece! Prazer, Morrigane!

- Eu sou Leafar. Encantado.

Leafar esticou a mão. Morrigane a pegou e deu dois beijos no rosto dele, um de cada lado.

- Que coisa. Lá em Rune Midgard é apenas um beijo no rosto. Desculpe, fiquei meio...

- Perdido? Então agora acertei!

Os dois riram. Um garçom se aproximou e serviu-lhes mais suco. Morrigane pegou um novo copo. Tomou um gole e ficou olhando curiosa para o louro.

- E o que você faz mesmo, Leafar?

- Sou sou um Lorde. É um tipo de Cavaleiro, mas com mais habilidades de combate. Sou especialista em espada de duas mãos.

A garota começou a rir espontaneamente, deixando Leafar sem jeito. Ele deu um sorriso amarelo, olhando enquanto ela colocava a mão na boca, tentando parar.

- O que eu falei de errado?

- Desculpe-me! É que você não parece do tipo que luta. E por já ter entrado na alta casta da sociedade de Rachel, acho que é mais fácil você contratar seguranças!

- Sei, sei... as aparências enganam. - Leafar começou a andar, acompanhado da jovem - E posso saber o que a senhorita faz da vida?

- Eu sou rica, ora. - a resposta foi imediata e espontânea - Eu faço o que eu quiser.

- Deve ser emocionante...

- Notei sarcasmo na sua voz?

- Desculpe, não foi a intenção.

- Não, sem problema, de verdade! Estou cansada desse povinho daqui de Rachel. Eles são muito submissos, nunca abrem a boca para discordar de nada!

- Disse "desse povinho"? Não é daqui?

Morrigane riu de novo. Deixou o copo na mesa e puxou Leafar pelo braço, fazendo-o virar na direção do centro da festa.

- Aquele de terno marrom é Sir Andrews, de Al De Baran. Aquelas duas senhoras de vestidos verde e branco são de Juno. Aquele homem alto e forte é de Umbala. E minha família vem de Lighthalzen.


- E o que vieram fazer aqui em Rachel, longe de tudo e de todos?

- Não sei. Talvez o mesmo que você? - o olhar dela foi fulminante.

- Você pensa rápido, Morrigane.

- Talvez tão rápido quanto você diz usar sua espada?

- Eu nunca disse que uso minha espada rápido.

- Todos sabem que espadas de duas mãos são feitas para quem é rápido.

- Eu podia ser híbrido.

- Podia, mas tem cara de que é bom no que faz.

- E você, no que é boa?

Antes que Morrigane pudesse responder, um grito alto e agudo atravessou a festa. Vinha da sacada logo acima da piscina, no segundo andar do hotel. "Fique aqui", foi o que Leafar e Morrigane disseram um para o outro, enquanto corriam para o local do grito. Passaram pelos convidados e entraram no hotel. Rapidamente subiram as escadarias. Ao chegarem na porta que dava para a sacada, Leafar parou. Espalmou a mão, pedindo para Morrigane também parar. Com cuidado, ele abriu uma fresta. Seguro de que não havia perigo, puxou a porta e saiu para a sacada.

A luz da lua iluminava um corpo caído de frente. Era um jovem aparentemente típico. Sua nuca estava dilacerada, com a cabeça pendendo para o lado. Havia perfurações nas laterais do seu corpo, que soltavam muito sangue. Alguma coisa estava errada naquela cena. Leafar ficou olhando o corpo, enquanto Morrigane se aproximava, abaixando ao lado dele, examinando. Um som, porém, chamou a atenção de Leafar. Apesar da pouca experiência como Lorde, reconhecia muito bem os sons de uma batalha, mesmo que fosse sutil. Seu ouvido, aguçado, identificou a direção - o andar térreo. E sem dar satisfações à garota, pulou da sacada.

Correu no meio do jardim escuro, dentro da noite. Ouvia um som constante, um tipo de ronronar, que se alternava para vibrações mais intensas. Fazia muito barulho, e o ronronar cessou. Diminuiu o ritmo da corrida, até começar a caminhar na grama. As folhagens das árvores agora eram o único som que podia ser ouvido, além de seus próprios passos. Foi até onde acreditou ser o local onde ouvira a batalha. Uma árvore chamou sua atenção por apresentar um corte recente. Parecia algo feito por uma lâmina bem afiada. Aproximou-se dela e percebeu respingos de sangue. Algo refletiu a luz do luar, fazendo-o se abaixar.

Encontrou um objeto pontudo, parecendo rudimentar, de um único material, branco e afiado.

- O que é isso?

Súbito, virou-se. Conseguiu ver apenas, de relance, um par de olhos brancos em um rosto escuro, com pontas no topo da cabeça. Foi atingido com força. Odiou seu pai por não estar armado e, antes de xingá-lo secretamente em sua mente, desmaiou.

***

_________________


Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário http://rtfeykhus.forumeiros.com
Administrador
Administrador
Administrador
avatar

Masculino
Número de Mensagens : 332
Idade : 28
Localização : Belém - PA
Data de inscrição : 07/03/2008

MensagemAssunto: Re: [RagnaTales] Garra das Trevas   Dom Maio 18, 2008 12:04 pm

Os passos faziam barulho no chão de pedra e terra. A mulher corria desesperada, olhando para trás. Caiu uma vez, sujando a saia. Levantou-se apressada, deixando uma das sandálias no chão. Estava ofegante. Tropeçou e caiu de novo. Suas mãos estavam raladas. Queria chegar em casa ou encontrar alguma alma amiga. Arrastou-se até a parede daquele beco e foi fazendo força para ficar de pé.

- Por favor, não... por favor! - implorou, notando os três homens que se aproximavam. Um segurava uma clava de madeira, grossa e maciça. O outro parou, olhando para os lados, como se vigiasse, enquanto o último começava a tirar o cinto.

- Pode ser do jeito fácil ou do difícil, dona. - falou ele, abaixando a calça - Ou a senhora colabora, ou vai dormir um pouquinho.

Ela chegou a berrar, mas levou um murro na boca, caindo com o rosto no chão. Sentiu as mãos asquerosas do homem puxando sua saia, buscando suas pernas, enquanto os outros riam ao fundo. Apertou os olhos com força, sem ter como reagir, esperando o toque nojento do bandido, orando para que tudo acabasse logo.

Foi quando ela ouviu um baque.

Virou-se para ver. Os dois primeiros homens estavam no chão, desfalecidos. O terceiro terminava de puxar as calças, desesperado com a figura sombria em sua frente. Parecia um monte feito de sombras, com uma cabeça com duas pontas, de olhos brancos e brilhantes. Essa cabeça começou a se erguer, dando forma humana à figura. Era impossível ver seu corpo, por causa do manto que usava, cheio de pontas, tanto na parte de baixo quanto nos ombros.

- G-Garra das Trevas! - balbuciou o homem, segurando firme a clava.


O bandido, incerto do que fazer, deu voz ao desespero; avançou e bateu na figura sombria. O homem desapareceu em pleno ar em um piscar de olhos. O criminoso então encostou-se na parede.

- Gosta de abusar de jovens sozinhas? - falou uma voz vinda de toda a parte.

- Eu não tenho culpa! - berrou o homem - Eu sou um ser humano! Não faça nada comigo, por favor!

- Implorando. Como fazia sua vítima. Você a ouviu?

A mulher notou a calça do homem ficar molhada. Ficou com os olhos arregalados quando viu o Garra das Trevas pendurado na parede, logo acima do bandido, com a capa pendendo, como se o abraçasse. E antes que o homem pudesse ter alguma reação, foi puxado pelo mascarado para as sombras, junto com um grito do mais puro terror. E como se fosse possível, o homem soltou um segundo grito, ainda mais alto.

Sangue respingou na mulher, que olhava para o alto. Momentos depois, o homem caiu, arremessado do alto da construção. E algo foi jogado ao lado dele. Parecia seu membro íntimo, cortado.

- Não volte mais sozinha a essa hora. - a voz fez a mulher olhar para trás, notando, surpresa, o mascarado atrás dela.

- O-obrigada, Garra das Trevas. - ela falou, observando-o uma fresta do manto dele, mostrando as vestes de mercenário. Conseguiu reparar em uma lâmina, ainda pingando sangue quente e fresco.

- Esse não é meu nome. - respondeu, cobrindo-se totalmente com o manto - Meu nome é Jöseph.

E, ao dizer isso, desapareceu novamente, como se nunca tivesse estado ali.

***

_________________


Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário http://rtfeykhus.forumeiros.com
Administrador
Administrador
Administrador
avatar

Masculino
Número de Mensagens : 332
Idade : 28
Localização : Belém - PA
Data de inscrição : 07/03/2008

MensagemAssunto: Re: [RagnaTales] Garra das Trevas   Dom Maio 18, 2008 12:05 pm

Garra das Trevas



Capítulo 2 ~ Não estamos sozinhos

As vozes começaram a ficar próximas para Leafar. Sua cabeça ainda doía, mas estava bem. Uma rápida olhada o fez perceber que não tinha sido ferido. Esteve apenas desacordado. Notou o sofá onde estava deitado e tentou se levantar, mas recebeu uma mão espalmada no peito, de um homem de meia idade.

- Relaxe. Você está em segurança agora.

- Aonde estou?

- Na recepção do hotel. Por favor, não se mova muito.

Leafar notou que o homem, pelas roupas e instrumentos, parecia um médico. Ficou quieto, tentando ouvir o burburinho. Finalmente reconheceu o rosto de Zhed, que se aproximou, consternado.

- Como está, meu amigo?

- Bem, obrigado. Alguém me atingiu forte na cabeça. - falou enquanto o médico lhe dava um comprimido - O que aconteceu?

- Um homem foi morto na sacada do hotel. Era um arqueiro, a julgar pelos equipamentos. E desconhecido.

O louro passou as mãos nos bolsos. Franziu o cenho e olhou para o médico.

- Não acharam nada na minha mão? Eu segurava um objeto.

- Nada. Agora leve isto - o homem entregou a ele dois comprimidos - e tome um se voltar a sentir dor de cabeça.

- Obrigado. - decepcionado, Leafar se levantou. Olhou para a escadaria que levava até a sacada.

- Talvez - disse Zhed - queira ir visitar a Papisa logo pela manhã, para se distrair e esquecer isso. Aliás, seria um imenso favor que você não comentasse sobre este incidente com ela.

- Claro, Zhed. Mas eu gostaria de ver a cena do crime mais uma vez.

- Não vejo por que não. Pode subir. Veja o que precisar lá, tem a minha autorização.

O homem deu um sinal de mão para os soldados que guardavam a subida da escadaria. Leafar passou por eles e voltou para o local onde acharam o corpo. Ele continuava ali, com uma poça da sangue grande em volta do peito e um rastro rubro que saía do pescoço, com o rosto voltado para o céu. Um homem fazia anotações em uma prancheta.

- O senhor não pode ficar aqui. - disse ele, olhando por cima dos óculos.

- Posso sim. Zhed me autorizou.

- "Senhor" Zhed, para você. - o homem parou de fazer anotações e olhou com ar de reprovação para Leafar.

- "Senhor" é para você, que é subalterno. Não me faça perder tempo batendo boca e diga logo qual a causa da morte.

Leafar tomou a prancheta da mão do homem e começou a ler. Apertou os olhos e voltou sua atenção para o homem.

- "Morte causada por ferimento na nuca e grande perda de sangue. A vítima recebeu o golpe e tombou morta no chão"?

- Como você pode v...

- "Você" não. "Senhor Belmont". - interrompeu Leafar, irritado com o sujeito ter lhe maltratado inicialmente.

- Bem, senhor Belmont, o homem, como o senhor mesmo pode ver, está morto. Ferimento na nuca e perda de sangue em grandes doses.

- Mas há algo errado aqui.

- Como assim?

- Veja. Ele foi cortado na nuca. Mas está caído de frente para nós, com as costas no chão. Um golpe nas costas teria causado algum impacto, forte o suficiente para que ele caísse com o peito no solo.

- Logo se vê que o senhor é um amador, senhor Belmont. Eu sou Alan Ulysses, chefe da equipe de legistas. E se o senhor está tão certo do que diz, quer dizer que o homem morreu com outro tipo de golpe?

- Bem, a princípio, ele realmente levou um golpe na nuca.

- Viu? O homem levou um golpe de lâmina na nuca, girou sobre o próprio corpo e caiu no chão.

- Eu tenho uma objeção.

- O quê? - Alan ficou indignado.

- Se isso fosse verdade, dado o modo como a cabeça ainda está pendurada nele, esse pouco de pele e carne não teriam segurado ela. E ela não estaria posicionada tão próxima do pescoço.

- O que você está insinuando?

- Eu não sei ainda. O que me parece é que ele foi atingido no chão, depois de morto. Talvez acidentalmente... eu não sei.

- Isso não faz sentido! O senhor que me perdoe, senhor Belmont, mas amadores não deviam entrar assim na cena de um crime! O senhor não é o tal que comprou a Mansão Murrieta? Por que não vai lá nadar na sua piscina gigantesca ou correr de PecoPeco nos corredores dela? Como teria este homem morrido, se não por esta decapitação?

- Pela quantidade de sangue do lado do peito dele, eu diria que foi hemorragia. - Leafar levou as duas mãos à cintura, confiante - Causada por perfurações no peito... e costas!

- Sem chance!

- Ah é? Eu notei, quando cheguei aqui, que o corpo tinha perfurações na lateral. Você já encontrou elas, acredito. - argumentou o louro, coçando o queixo - Mas olhe o sangue. Repare que ele parece vir de baixo das costas dele. Talvez existam mais ferimentos.

Alan engoliu seco. Abaixou-se e notou os detalhes observados por Leafar. Olhou indignado para o louro. Sua voz demorou a sair.

- Você... está certo. Mas por que alguém teria virado o corpo dele de frente?

- Eu não sei. Ele pode ter sido atingido mortalmente e caiu com o peito no chão. Pode ter sido atingido e se virou, agonizante. São muitas as variações. Aliás, que tal virar o homem?

Dando de ombros, Alan virou o corpo. As costas estavam sujas de sangue e apresentavam buracos iguais aos da lateral.

- Viu? - Leafar continuou - Há sangue nas costas dele. Se ele tivesse sangrado enquanto estivesse de frente, o peso do seu corpo não teria permitido que o sangue tivesse sujado as costas da sua roupa.

- ....................! É verdade!

- A causa da morte não foi o ataque na nuca dele, mas as perfurações na lateral e nas costas do seu corpo. Talvez esse golpe na nuca tenha sido uma tentativa de enganar as investigações.

Súbito, Leafar piscou. Balançou a cabeça negativamente e sorriu.

- Desculpe, Ulysses. Acho que fui até um pouco rude com você. É que em Rune-Midgard eu não estou acostumado com pessoas me barrando em cenas de crime. Na verdade, não quis atrapalhar seu trabalho. Com licença e boa noite.

- Espere! Não pode nos ajudar mais?

- Não, eu me esqueci de algo muito importante.

- O quê?

- Estou de férias.

Com um suspiro, Leafar voltou pela porta da sacada. Colocou as mãos nos bolsos. Passou por Zhed, apenas confirmando rapidamente o encontro com a Papisa na manhã seguinte. Saiu até a rua e procurou a carruagem, mas teve outro lampejo de memória - tinha dispensado Albert, preferindo ir a pé para o Hotel.

- Quer companhia, moço?

Morrigane. Leafar tinha se esquecido dela. Ela estava sorridente, com as duas mãos para trás. A luz da rua refletia em seu pingente, acomodado em seu decote.

- E você, não vai para a sua casa?

- Eu moro perto da sua mansão. Você foi brincar de herói, acabou ferido.

- Não fui brincar de herói.

- Não, né? Mas tudo bem. Essa pancada que você tomou só reforça que você é um Lorde. Eu acredito em você, tá? - Morrigane piscou, com o sorriso divertido.

- Minha cabeça está doendo demais para discutir.

- Mas não o suficiente para pensar. Ouvi você falando com o Alan Ulysses. Boas deduções.

- Obrigado. Mas não foi isso que me fez parar para pensar.

- E o que foi?

- Eu não quero falar sobre isso agora. Eu estou de férias.

- E no que quer pensar?

Morrigane pegou o braço de Leafar e os dois começaram a andar sem pressa, na direção da mansão, ao leste.

- Eu não sei ao certo. Estou tentando me distrair. Passei por muita coisa recentemente.

- Tipo o quê?

- Deixa pra lá. Eu pensava ser legal contar a história da minha vida, mas ouvi um bêbado na taverna outro dia, que insistia em contar a cada dez minutos a história dos pais dele, da terra dele e a dele própria.

- E o que isso tem a ver com você?

- Ah, achei muito inconveniente. A gente pedia comida, o cara "Oh, isso me lembra minha mãe" e aí contava a história da mãe dele. Alguém tropeçava e ele "Oh, isso me lembra meu pai. Eu fui expulso de casa aos três anos, depois de ser possuído por um Dragão Lich e o espírito de uma raposa demônio", algo assim. E a cada pessoa que entrava na taverna, ele repetia tudo de novo, e de novo, e de novo... e ia acrescentando mais coisas a cada vez que falava. Parecia até que ia inventando na hora.

A garota riu, apoiando a testa no ombro de Leafar.

- Isso é falta de mulher. - disse ela, com o sorriso largo - E não se compare a um bêbado, Leafar. Ele certamente queria chamar a atenção, só isso.

- Provavelmente deve ser isso. E sobre querer chamar a atenção também.

- E eu aposto que você tem coisas bem mais interessantes para contar...

- Até que tenho. Talvez queira ir comigo até a mansão para beber algo e jogarmos conversa fora.

- Se a sua namorada não achar ruim, eu vou sim!

- Não tenho mais namorada.

- Oh, que triste isso! - a garota deu um sorriso largo, aproximando-se de Leafar, segurando mais forte seu braço.

***

As horas tinham passado rapidamente. Cinco garrafas de vinho estavam vazias, caídas no chão da sala da lareira. Uma sexta garrafa estava pela metade. Os sapatos de Leafar e o salto de Morrigane estavam caídos no chão, assim como o paletó e a gravata dele. Sua camisa estava aberta, com as mangas dobradas para trás, e ele estava sentado no chão, segurando sua taça de vinho, rindo. Morrigane estava deitada em uma almofada enorme na sua frente, de lado, reforçando as curvas do seu quadril.

- ... aí foi ridículo. - falou o louro, sorridente - E eu falei "mas é claro, seu animal! Você é um cavaleiro!".

Os dois riram. Morrigane abaixou a cabeça, espalhando o cabelo pelo carpete. Levantou olhando Leafar por entre os fios e se aproximou, deitando com a cabeça em seu colo. Ficou olhando-o nos olhos, enquanto ele terminava a bebida.

- Você é muito engraçado, Lea! Não acredito que está solteiro!

- Pois é... as mulheres que se envolvem comigo geralmente morrem. Ou desistem dessa vida de aventuras. Eu diria que sou um péssimo partido.

- Todas morreram?

- Não. Tô exagerando. Só a primeira que se matou. As outras foram embora por motivos diferentes.

Ele ficou parado, olhando o fundo vazio da taça. Se pegou então olhando para o decote de Morrigane, com o pingente entre seus seios. Ela estava olhando para o louro, que ficou ruborizado na hora que ela pegou seu olhar. Ele esticou a mão para pegar a garrafa de vinho, e completou as duas taças.

- E você, Morrigane? Cadê o namoradinho?

- Não tenho namorado.

- E esse pingente bonitão aí? Vai me falar que veio de brinde no doce de banana?

- Eu ganhei ele faz muito tempo. É meu pingente da sorte.

- Sorte, é? Tô sabendo...

- Mas é, não é? - ela se virou de frente, deixando-o pendurado, com as mãos apoiadas no chão, olhando o louro nos olhos - Afinal, conheci você.

- Você pode acabar morta. Ou se tornar uma pessoa comum.

- E se eu quiser pagar para ver?

Morrigane começou a escalar Leafar, sentando em seu colo e levando o rosto para perto do dele. Ele passou automaticamente as mãos nas costas dela. Os rostos começaram a se aproximar. As bocas se entreabriram e seus olhos se fecharam, quando um som tirou sua atenção. Era uma música, que vinha de um volume no bolso do louro.

- Está feliz em me ver ou isso no seu bolso é o seu celular?

- O celular é o do outro bolso. - disse ele, sorrindo.

Mordendo os lábios, a garota passou a mão na perna dele e tirou o aparelho preto. Olhou o visor com a foto de uma garota ruiva e sorridente.

- Quem é a baranga?

- Pela música, é a Mia. Não, pera. A da Mia é outra. Acho que é a Bonnie. Agora me confundi, deixa eu ver.

- Bonnie Heart? - Morrigane puxou o telefone, para que Leafar não alcançasse - Ah, a tal que ficou te dando colinho depois da luta com aquele Hrymm, é? Sei... deve estar cheia de amor pra dar, pelo jeito.

- Não fale assim dela. Melhor eu atender. Ela terminou o casamento, pode ter acontecido alguma emergência.

- A única emergência aqui é esse vestido me apertando, Lea.

A morena jogou o telefone longe enquanto beijou Leafar, levando as mãos dele até suas costas. A música insistente do telefone celular chamou a atenção de Rush, o cãozinho. Ele viu o rosto de Bonnie na tela e começou a lambê-la, distraído, sem imaginar o que seu dono e a garota faziam no chão, tendo apenas as chamas da lareira como testemunhas.



***

Leafar acordou assustado. Estava em sua enorme cama de casal, em seu quarto. Do seu lado, Morrigane dormia enfiada embaixo do grosso cobertor. Notou as roupas de ambos passadas e penduradas em cabides na parede oposta. A luz da manhã invadia o quarto. Passou a mão na cabeça, apertando os olhos. Não se lembrava de ter subido com a garota ali. Súbito, a porta dupla de madeira se abriu. Albert entrou com uma bandeja de prata, que tinha algumas fatias de pão, geléia, manteiga, chá quente e leite.

- Bom dia, patrão Belmont. - disse ele, deixando a bandeja ao lado da cama.

- Bom dia, Albert. - Leafar pegou uma fatia de pão e passou manteiga nela - Eu... não me lembro de ter vindo para cá ontem.

- Eu tomei a liberdade de trazer o senhor e sua convidada para o seu quarto, depois que os dois dormiram.

O louro ficou vermelho e engoliu seco, mas Albert sequer o olhava no olho.

- Trabalho para garantir seu bem-estar e conforto, patrão. Não se preocupe com nada, pois não estou aqui para achar ou fazer perguntas sobre sua vida pessoal que não me dizem respeito. Para isso existe os periódicos semanais.

- Ah... obrigado. Que horas são?

- Sete e doze da manhã. Seu encontro com a Papisa será às oito horas. Já separei os Corações Glaciais que o senhor coletou na sua visita à Caverna de Gelo, como presente.

- "Visita"... nem fiz nada lá. Só fugi e peguei o que estava no chão.

- E quanto à convidada, patrão?

- Ah... deixe ela aí, dormindo. Deixe ela ficar à vontade na mansão. Se ela precisar de algo, pode ajudá-la.

- Como queira, senhor.

Leafar deu um beijo na testa de Morrigane, que apenas se encolheu mais na cama, dormindo um sono profundo. Levantou e vestiu uma roupa casual para sua visita ao templo. Era hora de conhecer a tal da Papisa.

***

_________________


Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário http://rtfeykhus.forumeiros.com
Administrador
Administrador
Administrador
avatar

Masculino
Número de Mensagens : 332
Idade : 28
Localização : Belém - PA
Data de inscrição : 07/03/2008

MensagemAssunto: Re: [RagnaTales] Garra das Trevas   Dom Maio 18, 2008 12:05 pm

Templo de Rachel
8h10 da manhã

Apoiado na murada do alto da escadaria de pedra, Leafar observava o jardim. Fontes de água eram ladeadas por passeios de pedra e grama, com arcos ocasionais. Pássaros bebericavam em pequenos bebedouros, enquanto crianças brincavam ao redor. Estava admirado com a beleza do templo. A construção religiosa, enorme e imponente, tinha alojamentos adjacentes, que provavelmente eram ocupados por estudantes.

- Desculpe a demora, senhor. - disse Nemma, uma garota vestida em trajes brancos e longos - Eu fiquei trancada para fora. Essa porta é automática e às vezes ela trava.

- Tudo bem. Será que posso entrar agora? Sou esperado por Zhed.

- Claro, fique à vontade.

Leafar entrou. Notou o ambiente um pouco frio. Caminhou por um tapete vermelho e seguiu para a direita, procurando até encontrar a sala de Zhed. Notou o homem sentado atrás de sua enorme mesa de madeira, terminando de escrever um documento.

- Ah, Leafar! Seja bem-vindo. Está melhor?

- Estou sim, obrigado!

- Alan Ulysses não parava de falar de você. Disse que você foi de grande ajuda na dedução da causa da morte.

- Sério mesmo?

- Sim. Foi descoberto um sulco no chão. O homem realmente foi atingido por algo cortante depois de já estar morto.

- Mas ouvimos um grito no meio da festa.

- Essa é a grande questão. Quem gritou, e por que gritou?

- Eu não diria que é essa a grande questão, Zhed.

- E qual seria?

O louro engoliu seco. Não queria se envolver. Estava ali para descansar, não para resolver crimes ou ajudar. Seu pai e sua mãe tinham certeza de que ele ia descansar. Mas Leafar ouviu uma vez que "para que o mal vença, basta que uma única pessoa boa não faça nada". E isso fazia sua consciência doer.

- Bem, - disse, depois de postergar o máximo que pôde - o homem morto era um arqueiro.

- Sim.

- Ele era segurança do hotel?

- Não, a identidade dele é desconhecida.

- Pois é. O que fazia um arqueiro ali em cima, na sacada que dava para a festa?

- Eu... não sei dizer.

- Eu diria que ele queria matar alguém.

Zhed ficou em silêncio. Parecia um choque ouvir aquilo. Leafar continuou falando, entristecido.

- Desse modo, se eu fosse parte da equipe de investigações, eu me preocuparia mais com o motivo do homem morto estar ali do que o modo como ele foi morto. Isso é importante, claro. Mas se ele tentou matar alguém e não conseguiu, alguém vai tentar de novo. E resta saber quem era o verdadeiro alvo.

- Vou considerar essa informação e passá-la para a guarda da cidade. Realmente agradeço pela sua ajuda, Leafar. De novo.

- Não há de quê. Bem, e onde está a Papisa?

- Ah, sim, claro. Siga o corredor de volta até o salão principal. Vire à segunda direita depois da estátua, atravesse o portão metálico e entre na primeira direita. Entregue esta carta para os soldados na frente da escada e você poderá subir.

Leafar pegou a carta e agradeceu. Saiu andando até voltar para o enorme salão principal. Olhou ao redor. O que Zhed tinha dito mesmo? Pra subir as escadas? Era a segunda direita? Perdido, subiu o primeiro lance de escadas que encontrou. Andou por um longo corredor até encontrar o que parecia ser uma capela dentro do templo.

- Oi... tem alguém aí?

Continuou andando e abriu a cortina atrás do altar. Achou um galpão enorme, com uma grade pesada na frente. Algo, porém, chamou a atenção de Leafar; o chão estava vermelho, cheio de sangue.

- O que está fazendo aqui?

A voz de mulher fez Leafar se virar. Morena, de óculos, usava uma roupa com decotes e fendas demais para uma sacerdotisa. Mas foi assim que ela se apresentou, como a Suma Sacerdotisa Niren.

- Estou procurando a escadaria para encontrar a Papisa. Tenho horário marcado com ela e uma autorização do Sacerdote Zhed. - respondeu, mostrando a carta.

Niren olhou-a e voltou a olhar para o louro. Devolveu-lhe o papel, medindo-o com desdém.

- Não devia visitar a Papisa agora. - disse ela.

- E por que não?

- Porque talvez ela esteja ocupada e não seja uma boa idéia conversar com um estrangeiro agora.

Leafar não gostou do tom de voz da mulher. Limitou-se a segurar a carta e dar as costas para ela, andando em direção à saída.

- Ela está me aguardando. A menos que a senhora seja secretária dela ou queira me levar até lá, eu não tenho mais nada a conversar com você. Bom dia.

Dois guardas apareceram na porta. Leafar encarou-os, cerrando os punhos. Entretanto, ouviu a voz de Niren.

- Guiem o senhor Belmont até a entrada dos aposentos da Papisa. E escoltem-no até a saída depois que ele terminar os assuntos com ela.

Sem discutir, Leafar acompanhou os guardas, enquanto a mulher o observava, de braços cruzados. Quando ele se afastou, ela soltou uma bufada, irritada, vendo o sangue no chão.

***

Leafar estava pasmo. Tinha passado por dois portais especiais do templo e agora estava nos pés de uma escadaria imensa. A escada, porém, estava no meio do céu. Não tinha nada em volta. Ele sentia o calor gostoso do sol, enquanto a brisa mexia em seu cabelo. Pé ante pé, subiu cada degrau, olhando sem palavras para o que via.

Finalmente chegou a uma plataforma, com um trono imenso, rodeado por guardas vestidos de branco, com os rostos cobertos por um capuz pontudo. Uma garotinha loura estava sentada, usando um chapéu enorme, segurando um belíssimo cajado dourado.

- Bom dia! - disse ela, sorrindo.

- Bom dia, menina. Vim aqui para ver a Papisa.

- Eeeee! Sou eu! - ela saltou da cadeira e fez um "V" com os dedos acima da cabeça, o que gerou um rápido déja vù em Leafar.

- Você é a Papisa? Digo... uma criança?!

- Arrã! Meu nome é Freya. Quer dizer, é como me chamam desde que fui escolhida. Não sei meu nome de nascimento.

- Como assim?

- Ah, sou a Papisa, líder religiosa de toda essa gente de Rachel. Fui escolhida porque sou semelhante à deusa Freya, e tal.

Leafar reparou no cabelo louro e cacheado da menina, que contrastavam com seus olhos, um de cada cor. Sorriu e se ajoelhou diante dela.

- Eu sou Leafar. - piscou e também fez o "V" com os dedos - Estou encantado em conhecê-la.

- Encantado? Mas eu não soltei nenhuma magia! Cácácácácácácácá!

- O que foi isso?

- Isso o quê?

- Esse "cácácá"?

- Eu ri, ué! Ouvi um monte de gente rindo assim e resolvi imitar. Muito prazer, senhor Leafar!

- Pode me chamar só de "Le" ou "Lea", se preferir.

- Está bem, senhor Lea!

- Não, não! Pode ser só "Lea"!

- Foi o que eu disse, senhor Lea! De onde o senhor vem, e o que faz da vida?

- Eu venho de Prontera. Sou general do Rei Tristan III e líder da Ordem do Dragão.

- Tristão? O seu rei é um homem triste, senhor Lea?

- Eu disse "Tristan"!

- Ah. E o que é um dragão, que dá essas ordens que o senhor lidera?

- Hun... quantos anos você tem, Papisa?

- Pode me chamar de Freya! Eu tenho tudo isso aqui! - ela primeiro mostrou todos os dedos das duas mãos. Então percebeu o erro, abrindo a boca, assustada, e abaixou um deles.

- Ah... tem nove.

- Quem é esse dragão que dá ordens? E o seu rei é tristão por causa disso, é?

- Não, eu vou te explicar... - Leafar, sorrindo, sentou-se no degrau de mármore.

- Ebaaaaa! - a menina ergueu os bracinhos, derrubando a coroa - Sai todo mundo porque eu vou ouvir historinha! Vão embora! Xô!

Os guardas, sem discutir, fizeram uma reverência respeitosa e saíram, descendo as escadarias. Leafar olhou com pena para a menina. Estava vestida com roupas e ornamentos que registravam sua importância, mas era apenas uma criança. Seus olhos bicolores olhavam ansiosos, com a boquinha sorridente esperando para ouvir as histórias que ele lhe contaria.

- Bem, vamos lá. Era uma vez, há muito tempo atrás...

***

Mansão Belmont

A cama do quarto de Leafar estava desarrumada. Morrigane estava apenas com a peça inferior de suas roupas íntimas, no banheiro da suíte. Mexia em todos os objetos possíveis - a torneira, a descarga, os cabides de prata na parede... tudo. Puxava, empurrava, girava e batia neles.

- A senhorita necessita de algo?

A voz de Albert não fez com que Morrigane se virasse. Ela continuou mexendo nas coisas.

- Talvez a senhorita devesse ir embora. - ele insistiu, parado na porta do enorme banheiro.

- Talvez - disse ela, mexendo nas portas - você devesse se lembrar que seu patrão ordenou que eu ficasse à vontade. Você é obrigado a seguir suas ordens.

Morrigane, num lampejo, virou-se para o mordomo.

- E agora que me lembro... ele deu uma última ordem. "Se ela precisar de algo, pode ajudá-la".

- A senhorita apenas fingiu que estava dormindo para saber o que o patrão dizia.

- Eu preciso de algo e preciso da sua ajuda.

- Pois não, senhorita.

- Onde está o dispositivo que abre a entrada da base subterrânea?

O mordomo ficou parado, sem reação. Continuava com o ar sereno, despreocupado. Ele não se movia.

- Vai, Albert! Seu patrão lhe deu uma ordem direta! Você pode não me reconhecer mais, mas você precisa obedecer o que lhe foi ordenado. Qual sua missão primordial?

- Servir e proteger fielmente o dono da Mansão.

- E qual a última missão que ele lhe deu?

- "Se ela, no caso, a senhorita Morrigane, precisar de algo, que eu poderia ajudá-la".

- Então me ajude! Onde está o dispositivo de entrada da base subterrânea?

Albert andou até o lavatório. Abriu as duas torneiras - primeiro, a de água fria. Depois, a de água quente, em um número contado de voltas cada uma, alternando. Então levantou a torneira. A água da banheira escorreu para algum lugar, enquanto o chão tornou-se um escorregador.

A seminua Morrigane pulou, escorregando por um longo e escuro caminho. Sua queda foi amortecida por um colchão. Estava em um aposento cheio de monitores, mesas com livros e todo tipo de aparato. Andou até um tubo de vidro que sustentava trajes de Mercenária, com tons baseados em roxo bem escuro. Um manto da mesma cor estava atrás da armadura, com pontas que lhe davam um ar sombrio. Um elmo roxo com pequenos frisos dourados e penas escuras estava no alto, fazendo conjunto com o cinto - objeto que lembrava muito o estilo do pingente que a garota usava no peito descoberto.

Com o semblante fechado, que nem de longe lembrava a garota rica e cheia de sorrisos de antes, ela pressionou um botão, vendo o tubo de vidro se abaixar. Vestiu então a armadura completa, terminando com uma máscara de olhos que cobria a porção superior do seu rosto. Prendeu o cabelo em um rabo-de-cavalo e colocou o elmo por cima. Andou até uma mesa com uma tampa de vidro e abriu-a. Pegou alguns katares e foi guardando-os em diversos lugares estratégicos de seu manto e roupa.

- Raven está de volta ao jogo, Jöseph. - disse a mudada Morrigane, segurando firme um katar afiadíssimo, olhando perdida para o próprio reflexo nele - Começamos isso juntos, vamos terminar juntos.

***

_________________


Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário http://rtfeykhus.forumeiros.com
Yokan
Novato
Novato
avatar

Masculino
Número de Mensagens : 633
Idade : 24
Localização : República de Arunfaltz/Schablábláblá e Mansão RT
Data de inscrição : 16/03/2008

MensagemAssunto: Re: [RagnaTales] Garra das Trevas   Dom Maio 18, 2008 2:21 pm

=O Pysuiu censurou uma imagem!! Bissurdo!!


Mais uma ótima fic do reta... Digo, Leafar =D
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
Conteúdo patrocinado




MensagemAssunto: Re: [RagnaTales] Garra das Trevas   

Voltar ao Topo Ir em baixo
 
[RagnaTales] Garra das Trevas
Voltar ao Topo 
Página 1 de 1
 Tópicos similares
-
» [Resultado]XVIII Torneio de Fotos Cloth Revolution
» [Imagens] Cisne e Dragão Negro.
» [Bairro] - Setor Industrial
» Mural de Missões

Permissão deste fórum:Você não pode responder aos tópicos neste fórum
Feykhus :: Projetos em Andamento-
Ir para: